palavras, idiossincrasias, verbos
o imaginário de uma teuto-oriental tupiniquim

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Segunda-feira, Setembro 03, 2001

 
 

~11:58~

tá bom jabor, eu me rendo:
esta sua coluna está maravilhosa, uma delícia de ler.
às vezes vc acerta em cheio, mas quando não está inspirado...
e eu tb acho que vc imita muito o teatralismo do francis na tv...
mas depois de hoje eu te dou um baita desconto

Memórias póstumas de Glauber Rocha
[coluna de arnaldo jabor no globo de 28/08/2001]

Eu morri com 42 anos e odeio ser chamado de clássico, mito, lenda morta, retrato de antologia, posteridade na pedra; vão todos para a ‘p.q.p.’! Ficam se debruçando em mim como se eu fosse uma curiosidade, um estranho no ninho, um fóssil da velha geração dos anos 60. Nesta adulação post mortem, eu, que morri duro, percebo que querem me transformar em um filho do impossível, provando que não haveria lugar para mim neste mundo pós-moderno. No entanto, eu fui o primeiro a questionar o simplismo e as superstições que os ortodoxos do cinema e da política defendiam. Pós-moderno fui eu. Quando fiz o ‘Deus e Diabo’, minhas personagens do bem e do mal se interpenetravam. Corisco queria acabar com a miséria do mundo, matava para não deixar pobre morrer de fome, Antonio das Mortes era shakespeareano, em crise com o destino que o levava a massacrar beatos e cangaceiros, assim como o Sebastião, meu Antonio Conselheiro, dizia que o sertão ia virar mar. Eu trouxe Brecht e Eisenstein para o Cinema Novo, dei vida a Euclides e Rosa, mas eu furei mesmo o cinema internacional no palco seco que instalei na caatinga, a laje de pedra onde se moviam o amor, a morte, o véu de noiva, as mulheres se amando, o violeiro cego, o guarda-chuva surrealista, cactus e sol, o choro de Villa-Lobos, beijos e punhaladas, sexo e castração, tudo ao mesmo tempo, teatralizado num palco transcendental, sem a decupagem de filme americano. Ali, sim, eu mexi na língua do cinema.

Depois, em ‘Terra em transe’ sintetizei as forças brasileiras que estão além da mera luta de classes e que corroem o país com a gosma de suas cobiças, seu egoísmo, sua estupidez. Ali, no clímax da zona geral, o povo dança e canta entre ladrões, pelegos sindicalistas, demagogos janguistas, polícia, Igreja, bacharéis, prostitutas, todos num emaranhado barroco que culmina com o Jardel Filho tapando a boca de um sindicalista e falando para a tela: ‘Vocês já imaginaram o povo no poder?’. Foi a maior porrada na sociologia simplista dos derrotados de 64, que me valeu o ódio eterno daqueles que vêem os pobres como uma divindade intocável e não como destituídos e manipulados.

Eu trouxe a geléia das complexidades contra os dualismos fáceis. Eu trouxe a sobredeterminação, a dúvida para as certezas, o choque dos contrários, as rupturas estratégicas e de linguagem, para a politica e para a poesia. Quem fez isso antes? Eu fui o primeiro a apontar as razões da derrota em 64, nossa ingenuidade e onipotência ideológicas, eu fui o primeiro a falar em alianças e tive a coragem de tentar cooptar o poder militar para um projeto nacional. Quando falei que o Golbery era o gênio da raça, como Darcy Ribeiro, eu estava tentando o saudável sacrilégio de imaginar uma adesão de militares para a abertura que vinha com Geisel, para além da vitimização repetitiva e masoquista das esquerdas. Só faltaram me empalar como ‘reacionário’, ‘adesista’. Eu buscava uma saída qualquer para a ditadura e o subdesenvolvimento, mas os comunas adoravam as impossibilidades e viviam ‘certos’ num mundo errado, felizes como ‘nobres vítimas’.

Hoje, o Brasil está parecidíssimo com ‘Terra em transe’, com a miséria paralisada em meio a um carnaval de corruptos, políticos escrotos e FMI.

Fiz mais sucesso lá fora do que aqui. Quando ganhei Cannes como melhor diretor, em 69, com o ‘Dragão da maldade’, o Visconti deu uma festa em minha homenagem, dentro da grã-finagem intelectual européia.

Eu fiquei aterrorizado naquela noite, porque percebi que eu não queria aquele sucesso. Eu ia ser o quê? Um bem-sucedidozinho, um bacaninha tropical, comendo umas starlets , fumando charuto, casa com piscina? Eu queria muito mais. Eu não desejava uma revolução simpática, para dar comidinha aos pobres apenas. Eu queria um terremoto épico, cheio de som e fúria, operístico, com explosões estelares de tragédias e apoteoses, eu queria uma revolução que esmagasse a mediocridade, uma celebração do impossível e não a prudente organização social apenas.

Eu era como Rimbaud, eu buscava felicidades imensas, queria, como ele, ‘olhar o céu e ver praias infinitas cobertas de brancas nações em júbilo!’

Por isso, não havia lugar para nós no mundo. Rimbaud foi para a África. Eu também, fui fazer um filme para explodir o paternalismo dos críticos franceses — o ‘Leão de sete cabeças’.

Lá, eu comecei a morrer. Para mim, não havia futuro. Eu não aguentaria a sopa fria de hoje, o cash flow , o mercado, o charme narcisístico, a malandragem molenga da sacanagem e da grana. Ofereciam-me tudo, e eu recusei. Fui para os USA e fiquei num bordel na beira da ferrovia, o Magic Palace of the Stars (fiquei ali só pelo nome) e sujei meu prestígio com os executivos canalhas de Hollywood que me davam roteiros caretas. Fui para a URSS e odiei os burocratas cheios de vodka, fedendo a banha de urso. Fui para Cuba e desprezei os burocratas latinos que me achavam muy liberal , porque eu fumava maconha e comia as revolucionárias.

E fui enlouquecendo; é necessário dizer isso: morri louco, desesperado, implorando dinheiro a Embrafilme, com a septicemia de uma pericardite mal curada em Portugal, tentando juntar as pontas do sonho sebastianista com o Nordeste miserável e até misticismo. Faltou-me a terra, faltou-me o cotidiano, faltou-me a lama do realismo, o sujo e o óbvio, faltou-me a rampa do mercado, faltou-me, em suma, Jorge Amado.

No final, em Portugal, na úmida Sintra, eu já não comia mais, vivia escrevendo noite adentro, andava nu dentro de casa, cheio de recortes de jornais brasileiros, que eu tentava organizar como um quebra-cabeças.

Foi então que descobri, aterrorizado, que eu era uma personagem de mim mesmo. Eu não existia mais, eu era uma metáfora. Eu era arte. E morri, cheio de tubos, naquela cama do hospital no Rio, vendo do travesseiro, em contre plongé , meus amigos, o Barretão, o Cacá, o Mascarenhas, o Gustavo, até a besta do Jabor, todos tentando me segurar como um barco que vai partir; mas eu rompi as amarras e fui embora, ‘pegando um trem em direção às estrelas...’, como escreveu Artaud sobre Van Gogh suicidado.”

por kktanaka ~

 
 

 

 
 
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