palavras, idiossincrasias, verbos
o imaginário de uma teuto-oriental tupiniquim

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Segunda-feira, Setembro 24, 2001

 
 

~00:10~

Café em outono
[por kkboop. iniciado em jun/99]

Duas xícaras esquecidas de uma manhã ainda posta sobre a mesa. Tudo o que restou daquele romance. O fim de um outono. As folhas caíam das árvores ressequidas, como as lembranças emaranhadas surgiam na memória de Beatriz. As xícaras teimavam em olhar para ela. Muda e imóvel, seu sorriso costumeiro jazia agora num semblante indiferente. Como indiferente permaneciam seus desejos. Tudo tão quieto.

O bule de chá, o quadro na parede e o sonho esquecido. A paixão, a grande paixão. Todas as paixões. Com seu olhar, Beatriz percorre seus pensamentos e não se reconhece. Sente-se superficial, como seus romances de inverno. Está cansada, cansada... Nem triste, nem amarga, apenas cansada.

As migalhas minuciosamente esquecidas parecem contar-lhe histórias, rememorando os tempos gastos. As migalhas e as xícaras. E a mácula do café endurecido calidamente nas paredes alvas e tênues. Essa imagem, despretensiosa, criou contornos, voltas e redemoinhos, encontrando seu espelho junto aos devaneios da pálida cara amassada que acabava de se deparar com a rotina matinal.

Pensa consigo mesma que é preciso força e coragem para acordar e seguir a jornada de mais um dia. Mais um simples dia. É necessário muita teimosia: uma batalha interna travada toda manhã ao desligar o despertador, rolar preguiçosamente pela cama e se deparar com seus sonhos. Sempre os mesmos sonhos. Sempre as mesmas lembranças.

Com a mesma apatia volta-se para o banheiro. Deixando de lado a mesa e seus restos abre a torneira do chuveiro e depara-se com a água morna, caindo até o azulejo. Por um momento afoga suas lamúrias e encara aquela fluidez.

Despe-se calmamente. Sempre há o que despir. Uma idéia vaga, um pouco de melancolia, uma lingerie, uma saudade, uma camisola que já teve seu dia de brilho, o saldo bancário. As peças deslizam pelo seu corpo, nem feio nem bonito, e encontram o piso com aquela mesma paisagem líquida criada pelo brilho sobre os pingos.

A neblina sobe e povoa as paredes do asséptico cubículo. Sua imagem desfocada recebe com um murmúrio de ansiedade o solene momento.

Sua nudez desperta medo, vergonha, embaraço. Um corpo como qualquer outro corpo. Milhões de células conectadas, mas independentes, com alguma entidade: corpo. Organismo vivo, concreto, material. Substância, matéria.

Pensa. Pensa. Pensa. O cérebro obstinado não pára:
- "Tudo que é sólido desmancha-se no ar"...
- Desmancha mesmo?
- Substância viva, provida de matéria. Corpo. Vida. Morte. Insubstancial, imaterial, espectro. Incorpóreo. Se sim, então não? Não enquanto sim, mas sim já que não. Sim? Não? Talvez.!

Sem muito tempo para arrazoados filosóficos, mas ainda cheia de perguntas, desperta e retorna à rotina: da casa para o trabalho, para a casa, para o cigarro, a comida, a cama, o sono.

oooo


Esta é apenas mais uma história entre tantas histórias. Foi iniciada em Gabriel, Teve seu clímax em Carlos e foi à deriva - ou veio à tona - com Marcos. Seus amores. Sim, todos grandes amores. Tiveram suas estações. Inverno, outono, primavera, verão.

Entre brigas e cenas de sexo frio, o inverno de Augusto. Como o brilho de uma estrela mãe passou o verão de Narciso. A melancolia e a música de Danilo iluminaram um doce outono.

A primavera?
Desconhecia a primavera.

E assim passaram-se dias e noites. Luas e sóis. Estações de romances. Nomes perfilados numa lista. Sombras agregadas cada uma a seu tempo. Risos e lágrimas impressos e expressos. Impregnadas em momentos de ternura, desejo, raiva, dor, medo, alegria, esperança. O momento insípido da despedida. Beatriz seguia. Caminhava lenta e sonâmbula. Um estado de paralisia. A vida parecia suspensa. A turba passava adormecida. Ela contemplava, em sua trágica meninice tardia, o cenário invisível.

por kktanaka ~

 
 

 

 
 
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