palavras, idiossincrasias, verbos
o imaginário de uma teuto-oriental tupiniquim

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Sexta-feira, Setembro 21, 2001

 
 

~18:38~

arnaldo jabor
no estadão
Bruce Willis não mora mais aqui

Todo mundo virou cientista político. Surgiram multidões de analistas de "bom senso", tentando fazer a tragédia absurda caber num discurso coerente, racional (inclusive eu...) Mas, o que aconteceu não cabe na razão. Os conceitos operacionais para entender o que está havendo são insuficientes.

Ossama quebrou o discurso racional. Todos os gestos, palavras, bravatas vêm de um arquivo morto, de um repertório que ficou subitamente antigo. Foram atingidos: o iluminismo, o ateísmo, a arquitetura, a paz burguesa, o turismo, a sensação de invulnerabilidade, o consumo. Os comentários buscam uma restauração do senso comum e são, no fundo, uma utópica nostalgia pela volta do bem-estar.

Mas, no duro, só nos restam pedaços da ruína: perguntas, aforismos, dúvidas, toscas profecias, maus agouros, lamentos burros, uma onda de lugares-comuns, na base do "que horror" ou do "incredible". Surgiu um novo tipo de chato: o chato apocalíptico.

Aqui vão fragmentos, para ajudar em nossas conversas ridículas e impotentes.

Este filme-catástrofe não terá happy end. Não há vitória possível. Como seria a vitória? Extermínio do Oriente, copidesque do Alcorão? Iniciou-se um processo sem meio e sem fim. Bruce Willis não mora mais aqui.

O inimigo tem rosto, sim. O que apavora é que todos os terroristas afegãos, talebans, fanáticos em geral têm um rosto calmo, o olhar iluminado de certezas, a tranqüilidade da loucura. O xiita e o sunita não têm as angústias da liberdade nem do progresso. Não querem ser modernos; querem ser eternos. O fundamentalismo islâmico é um ritual obsessivo e os talebans atingiram a verdade. Se você aceita morrer, vive sentindo o aroma do "real".

Os talebans vivem na eternidade.

A maior ferida americana é que os miseráveis "mendigos", ignorantes, barbados e imundos chegaram a um nível de competência e imaginação "midiática" com que nunca Hollywood sonhou. O grande orgulho americano da eficiência foi perdido para "macacos suicidas".

Os dois "falos" do orgulho foram decepados, na circuncisão do WTC. Houve uma castração da onipotência americana. Espero que a depressão gere reflexão e humildade.

Não acredito que a Cavalaria americana vá se dar bem. As últimas incursões deles foram derrotas ou encrencas eternas: Coréia, Vietnã, invasão do Irã, Iraque, o navio Mayaguez, o ataque ao terrorista da Somália, a fuga do Líbano depois da morte de 241 fuzileiros. Só trapalhadas: Carter, papai Bush e agora filhinho Bush. O americano confia demais no seu poderio, mas é mau combatente, principalmente em "conflitos assimétricos". A base de qualquer guerra é aterrorizar o inimigo. Como lutar contra gente que quer morrer?

O terrorista também quer ascensão social: um fugaz poder com bombas no corpo, sucesso post-mortem e subida aos céus, para comer as mil virgens, as huris, dançando de odaliscas.

O rosto tenso do Bush me apavora tanto quanto o rosto calmo de Ossama.

Achávamos que seria esquerda x direita. É Deus contra o Diabo e vice-versa.

Dois fundamentalismos em luta: fundamentalismo calvinista x fundamentalismo teocrático. Como disse Tariq ALI: teologia contra tecnologia.

Finalmente, a globalização criou uma democratização da desgraça... Acabou a virtualidade: voltou a realidade. De uma forma repugnante, a verdade do mundo atual apareceu.

A longo prazo, esta derrota pode espiritualizar o Ocidente. Se houver "a longo prazo"...

Quanto vai lucrar a indústria de armamentos com isso tudo?

A guerra do Oriente Médio chegou a Manhattan. Não é "lá longe".

A segurança do americano vai sofrer com a tradicional preferência por Israel. No fundo, sempre odiaram os "mendigos" palestinos. Só o Clinton tentou superar esse preconceito. Quase rolou um acordo. Mas, a provocação dos fanáticos de Arafat e o sórdido nazista Sharon não permitiram a paz.

Não falei que a Monica Lewinsky tinha mudado o curso da história, com sua boquinha flamejante? Clinton bombardeou o Sudão na semana do espermatozóide no vestido, para se limpar. Depois, veio a derrota de Gore. A caixinha de Monica foi a "caixinha" de Pandora.

Quem ganha? Ninguém. Esta guerra sem rosto nunca terá derrota ou vitória.

"O Bem contra o Mal", berrou Bush, com seu rictus de filhinho em pânico.

Gelei quando seu papai apertou sua perna na igreja, como aprovação: "That's my boy..." "O Bem contra o Mal." Não haverá uma terceira via, hein, Tony Blair?...

Como vê isso tudo um sujeito analfabeto e faminto no Iraque, "sancionado" e bombardeado todo dia, onde já morreram mais de 300 mil crianças?

E nós, os emergentes-dependentes? Vão esquecer de nós? Como viveremos sem uma "nação líder"? Como financiaremos nosso déficit? Seremos terroristas da dívida externa e declararemos "moratória ou morte"?

O Vietnã criou os hippies. Esta guerra vai criar pós-hippies.

Logo agora que achávamos que a História tinha acabado e que viveríamos das sobras ricas do Império, a história recomeça, no século 11, com as Cruzadas... Viva Ricardo Coração de Leão!

O terrorismo veio para ficar. Como a Aids. Só que nunca haverá vacina contra os retrovírus afegãos.

Ao combater uma monstruosidade, temos de ter cuidado para não virarmos monstros (Nietzsche).

Deus ressuscitou: chama-se Allah...

por kktanaka ~

 
 

 

 
 
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