palavras, idiossincrasias, verbos
o imaginário de uma teuto-oriental tupiniquim

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Sexta-feira, Julho 13, 2001

 
 

~22:41~

"Compra Necessária

E isto é estranho, estupidez e doença, não sei se me expresso claramente, mas tenho uma impressão tão esquisita ao ver uma pessoa estúpida que ainda por cima está doente! Essas duas coisas reunidas, acho que são o que há de mais triste neste mundo. Não se sabe como comportar-se pois todos gostam, afinal de tratar um enfermo com seriedade e respeito, não é? A doença é, por assim dizer, uma coisa digna de reverência. Mas quando a estupidez, a cada instante, se intromete, dizendo "fómulo" ou "estabelecimento cósmico", ou outras asneiras do mesmo quilate - francamente, então não sei se devo rir ou chorar. É um dilema para o sentimento humano, e uma situação tão lamentável que nem posso dizer. Na minha opinião, não há coerência nessas duas coisas; elas não combinam; a gente é incapaz de imaginá-las reunidas. Sempre se pensa que uma pessoa estúpida deve ser sadia e comum, e que a doença torna as criaturas finas e cultas e diferentes. É assim que se pensa em geral, não é?
[...]
Quer dizer que não falou muito a sério, que os pontos de vista que acaba de representar não são propriamente os seus, que apenas apanhou uma opinião de entre as muitas possíveis que flutuam no ar, e que o fez a fim de se exercitar um pouco, sem assumir nenhuma responsabilidade. É o que está em harmonia com a sua idade, que ainda se compraz em dispensar a resolução viril e em tentar, provisoriamente, toda espécie de teorias. Placet experiri
[...]
Receio que exista no senhor uma tendência capaz de se arraigar no seu caráter, se não for combatida em tempo. [...] porém não posso deixar de protestar, quando o senhor se mete a considerar a combinação de enfermidade e tolice como uma espécie de falta de estilo, um ato de mau gosto e tolice como uma espécie de falta de estilo, um ato de mau gosto praticado pela natureza, e um dilema para o sentimento humano, conforme lha aprouve expressar-se. E quando o senhor julga a doença tão nobre e - como dizia? - tão digna de reverência, que simplesmente não pode harmonizar com a estupidez. [...] A doença absolutamente não é nobre, e nem um pouquinho digna de reverência. Essa concepção é por si mesma mórbida ou leva à morbidez. O método mais acertado de despertar no senhor repugnância contra ela, talvez seja dizer-lhe que é velha e feia. Tem ela a sua origem em épocas supersticiosas, acossadas de remorsos, e nas quais a idéia do humano, privada de toda dignidade, degenera a ponto de se tornar uma caricatura, épocas angustiadas, que consideravam a harmonia e o bem-estar como coisas suspeitas, diabólicas, ao passo que a debilidade equivalia a um passaporte para o céu. Mas a razão e o esclarecimento dissiparam essas sombras que pairavam sobre a alma da humanidade; verdade é que ainda não terminaram a sua obra, e a luta continua. Essa luta, meu caro senhor, chama-se trabalho, trabalho terreno, trabalho em prol da Terra, da honra e dos interesses da humanidade. E temperadas, dia a dia, por essa luta, aquelas forças acabarão por libertar o homem e por guiá-lo pelos caminhos do progresso e da civilização, rumo a uma luz cada vez mais clara, mais sua e mais pura.
[...]
- Um retrocesso - prosseguiu Settembrini, enquanto erguia o grada-chuva por cima da cabeça de um transeunte -, um retrocesso espiritual em direção aos conceitos desses tempos tenebrosos, atormentados... Creia-me, meu caro engenheiro, que isso é uma doença: uma doença explorada a fundo, para o qual a ciência conhece diversas denominações; uma deriva da terminologia estética e psicológica, e outra da política. [...] - queira pois o senhor gravar na memória que a doença, longe de ser nobre e por demais dignia de reverência para ser compatível com a estupidez, representa, pelo contrário, uma humilhação... Sim senhor, uma humilhação dolorosa do homem, um insulto à idéia, um rebaixamento que no caso individual pode merecer tolerância e cuidado, mas que seria uma aberração homenagear espiritualmente - grave isto na memória! - uma aberração e o início de todas as demais aberrações espirituais. [...] Estúpido e doente - meu Deus, isto são as peculiaridades da própria miséria; o caso é simples, e nada nos resta fazer senão sentir compaixão e encolher os ombros. [...] Uma alma ser corpo é tão desumana e horripilante quanto um corpo sem alma. A primeira é, aliás, uma rara exceção, e o segundo, o mais comum. [...] Um homem que vive enfermo é corpo e nada mais, e nisto está o anti-humano, o aviltante... Na maioria das vezes não vale mais que um cadáver...
[...]
confirma-se a minha opinião segundo a qual ele é um diletante do espírito e simplesmente se entrega, à maneira dos jovens talentosos, a experiências com toda espécie de conceitos possíveis. Um jovem de talento não é uma folha em branco, senão uma folha sobre a qual já tudo foi escrito, com tinta simpática, por assim dizer, tudo, tanto o bem como o mal, e cumpre ao educador desenvolver decididamente o bem e apagar, mediante uma influência adequada, o mal que deseje manifestar-se... Os senhores fizeram compras?


[...]
É um homem da oposição, como logo percebi. Investe contra qualquer coisa, e uma atitude dessas sempre me dá uma idéia de relaxamento.
[...]
tal atitude revela um certo orgulho que nada tem de relaxado. Pelo contrário, Settembrini é um homem que se respeita a si mesmo, ou respeita os homens em geral. E isso me agrada nele, porque, ao meu ver, é um sinal de decência."

A Montanha Mágica
[Thomas Mann]

:: doença, miséria de espírito... estou doente? vejo tantas pessoas doentes à minha volta. o texto é longo, sim - pior foi digitar. mas cabe muito bem com as coisas que disse dias atrás. cabe muito bem com a maneira que percebo certas pessoas e situações e lugares... é triste dizer, mas há muita gente doente no mundo. talvez eu mesma esteja enferma, padecendo deste mal que é a estupidez. sim. sinto-me, eu mesma, débil e estúpida. pode ser a convivência que a tudo influencia... é triste, pecaminoso até, dizer -e pensar- assim [vai para a lista de pecados que rola nos blogs esta semana]. mas pior é perceber e permanecer muda. há algum tempo percebi que não podemos dizer tudo o que pensamos. então escrevo aqui, com este prefácio enorme, que pouca gente vai ler. talvez aqueles que cheguem aqui são ou enfermos, ou talentosos. mas quem domina a verdade, a razão, a sabedoria? não sou eu, certamente. apenas percebo, observo... sinto-me triste, impotente... mas não posso me calar. não posso deixar de me indignar com tudo isso... não posso querer deixar de buscar uma certa transformção, senão no mundo, pelo menos na minha vida. como já disse, penso que às vezes não temos domínio sobre nossa própria sorte, mas quisera eu poder transformar a mim mesma, nem que fosse um pouquinho que seja. procuro uma luz para poder transformar-me, mesmo diante de tal convivência. não sei por onde começar. não sei como agir. confesso-me perdida. confesso-me enferma. ou não? talvez eu seja talentosa - ainda que nem tanto jovem. mas acho que deve valer alguma coisa admitir-se enferma. qual a cura? vontade de chorar...

por kktanaka ~

 
 

 

 
 
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